Minhas Leituras #52: Crime e castigo – Fiódor Dostoiévski

Título: Crime e castigo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Martin Claret
Ano: 2013
Páginas: 596
Tradução: Oleg Almeida
Veja o livro no site da editora: http://martinclaret.com.br/livro/crime-e-castigo-2/

“Detalhes, detalhes são importantes!… São justamente esses detalhes que sempre põem tudo a perder…” (DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Martin Claret, 2013, p. 47)

Ao lado de ‘Os irmãos Karamázov’, ‘Crime e castigo’ possui a fama de ser a obra-prima de Dostoiévski. Considerado um dos maiores clássicos da literatura russa, esse livro é muito mais do que um romance psicológico, trata-se, também, de uma forte crítica à diversas teorias e filosofias que floresceram durante o século XIX.

O castigo de seu autor

Um dos grandes nomes da chamada ‘Era de ouro da literatura russa’, Fiódor Dostoiévski foi um autor inovador por escrever sobre a Psicologia de seus protagonistas — em uma época onde essa ciência ainda engatinhava. Ele entrada na mente de cada um, descrevendo os pensamentos remoídos, os desejos pulsantes e o que todo esse esforço psíquico poderia causar em uma pessoa. Podemos dizer que ele foi um autor da alma.

Quando jovem, foi membro de movimentos revolucionários, que lutavam contra o império russo e contra a moral cristã. Foi preso por conta disso e chegou a ser amarrado em um poste para ser morto por um pelotão de fuzilamento, porém sua pena foi reduzida para quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria.

Seu exílio marcou uma virada em sua vida e em sua escrita. Mudou completamente suas crenças: passou a se opor a pensamentos radicais, tornando-se mais conservador e religioso. São detalhes de sua vida que podem ser vistos em suas obras, que passaram de fortes críticas sociais a verdadeiros estudos sobre a psicologia humana. ‘Crime e castigo’ é um bom exemplo dessas mudanças ideológicas, pois é um livro que busca desconstruir diversos pensamentos revolucionários, eminentes na Europa do século XIX.

“[…] a natureza é corrigida e direcionada, sem isso, a gente teria de afundar nos preconceitos. Sem isso, não haveria nenhum grande homem.” p. 107

Muito além do castigo

Ao ler o título da obra, temos uma boa noção sobre do que se trata o enredo: um crime e sua consequência, o castigo. Sim, isso é uma grande verdade, entretanto não se trata de uma simples condenação, uma sentença. Podem existir castigos piores que esse.

Rodion Românovitch Raskólnikov (os nomes das personagens são complicados) é o protagonista. Autodeclarado ex-estudante de Direto, vive em um minúsculo quarto alugado, em São Petersburgo, capital do império russo. Por conta de sua precária situação financeira, precisou largar os estudos. Sua situação fica ainda pior ao ver-se penhorando diversos itens pessoais para conseguir dinheiro, além de possuir débitos de aluguel.

Ele possui uma teoria que acredita em uma humanidade dividida em duas categorias: uma inferior, composta pela maioria, e outra superior, composta por poucos elementos, e estes estão acima do bem e do mal. Seu crime, assassinato, é um reflexo disso, a prova prática de sua teoria. Seu castigo, um grande sofrimento psíquico, amplamente detalhado e discutido ao longo da narrativa.

Abordando fortemente a Psicologia, essa foi uma das primeiras grandes obras literárias a se aprofundar nesse tema. É incrível como o íntimo das personagens é descrito, algo que foi muito mais explorado anos depois, com autores como Arthur Conan Doyle. Falando nisso, esse também pode ser um esboço de literatura policial e investigativa, já que o crime, seus detalhes e motivos, são temas do enredo.

“Pois eu acho que a gente descobre e elucida mais coisas ao observar, justamente, as nossas gerações novas.” p. 187

Crítica ao niilismo

Doutrina filosófica que acredita que as instituições políticas e sociais tradicionais não possuem valor, são más e devem ser destruídas. Pensamento que tomou força durante o século XIX, principalmente entre os revolucionários.

Esse tema já foi debatido por Dostoiévski em ‘Diário do subsolo’ (clique e veja minha resenha), onde o protagonista sem nome, o homem do subsolo, vive um inferno interior por possuir esse pensamento niilista. Raskólnikov também é um homem do subsolo, colocando-se acima de tudo, da sociedade, da moral e da ética. Ele cria uma ética própria e equipara-se a Napoleão.

Raskólnikov representa o niilismo, que é desconstruído ao longo da narrativa, com Dostoiévski buscando provar que se trata de um pensamento vazio e sem valor ou utilidade. O investigador Porfíri é quem irá mostrar como essa teoria é radical e impraticável.

Outro tema abordado no enredo é o Cristianismo, representado pela ressureição de Lázaro. Assim como Dostoiévski, Raskólnikov passa por uma grande mudança ao buscar sua redenção, sua ressureição. Sendo um homem do subsolo, ele tenta se livrar de qualquer tipo de emoção, não aceita nenhuma ajuda. Sófia será a responsável por essa mudança, e os dois carregarão suas cruzes em busca de redenção, pois ela também é uma pecadora, mas uma que não abandona sua fé (uma personagem totalmente ao contrário daquilo que o niilismo representa).

Há muitas outras questões abordadas pelo autor, como certas críticas ao socialismo utópico (a primeira corrente desse pensamento), porém a grande crítica fica ao niilismo e ao que ocorria na Rússia enquanto o livro foi escrito. Dostoiévski acreditava que a sociedade estava se afastando do Cristianismo e da crença em Deus e esse livro deixa esse pensamento bem claro.

“Mata-a e pega seu dinheiro para te dedicares depois a servir, com ele, toda a humanidade e a causa comum; achas que um crimezinho minúsculo não fica apagado com milhares de boas ações?” p. 107

Sobre a edição

Ótimo exemplo da renovação pela qual a editora Martin Claret passou. Edição linda e caprichada, à altura da grandeza de seu conteúdo. Capa dura, páginas em papel off-white (não sei dizer se é o Pólen Soft ou o Avena), excelente diagramação, bom tamanho de fonte e de margens. A parte gráfica também ficou muito bonita e a edição conta com uma fitinha para marcar as páginas. Eu poderia dizer que a gramatura do papel utilizado no miolo poderia ser um pouco maior, mas o livro já é pesado o suficiente, então aumentar a gramatura não seria uma boa ideia. Em questão de qualidade de material utilizado, essa é a melhor edição disponível no mercado brasileiro.

Tradução direta do russo, por Oleg Almeida, poeta e tradutor nascido na Bielorrússia e erradicado no Brasil desde 2005. Por ser poeta, Oleg possui o domínio das palavras; por estudar a língua russa desde criança, seu domínio do idioma é inquestionável. Ótima tradução, que busca preservar todos os nuances do autor. O tradutor deixa claro, em uma nota inicial, que a escrita de Dostoiévski é, às vezes, estranha, e que tentou verter isso para o português da melhor maneira, da forma mais natural possível. Acredito que essa missão foi cumprida, pois Oleg fez uso de palavras mais arcaicas, de um português do século XIX, que causam uma estranheza na construção das orações. Não posso comentar sobre outras traduções, mas a de Oleg Almeida não deixa nada a desejar, um grande trabalho.

A edição conta com uma introdução e uma linha do tempo da vida de Dostoiévski, elaboradas pelo tradutor da obra, além de muitas notas de rodapé.

“Mentir é o único privilégio humano perante todos os organismos. Mentindo é que se chega à verdade!” p. 240

Conclusão

Leitura que deve ser feita nas entrelinhas, pois há um significado por trás daquilo que Dostoiévski nos apresenta. Grande parte disso são críticas a pensamentos do século XIX, sendo o niilismo o principal alvo. O objetivo do autor foi atingido por meio de um texto bem construído, suas críticas ficaram bem claras e com bons argumentos, onde cada personagem possui uma representação importante nessa composição. A análise psicológica de Raskólnikov é de um aprofundamento ímpar, mergulhamos em sua mente através das palavras ao longo de cada página. Seu sofrimento é muito bem descrito. Uma leitura superficial apresenta uma história investigativa, onde um personagem rumina seus pensamentos, por conta de seu crime, e sofre por disso. Porém, a ponta do iceberg está muito mais ao fundo, ou seja, o livro quer dizer muito mais do que aquilo que está na superfície. Tanta filosofia tende a ficar maçante em certas partes (algo que Vladimir Nabokov criticava em Dostoiévski), a leitura poderia ficar mais fluida sem certas indagações, todavia essas são características que fazem dessa obra aquilo que é: um dos mais importantes livros de todos os tempos.

“É que chega um tempo em que a gente precisa mesmo ir para algum lugar, seja lá qual for!” p. 56-57

Minha nota (de 0 a 5): 4,5

Alan Martins

Livro Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski, editora Martin Claret
Bela edição, produzida com muito capricho. A obra está muito bem representada!

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Minhas Leituras #52: Crime e castigo – Fiódor Dostoiévski

22 comentários sobre “Minhas Leituras #52: Crime e castigo – Fiódor Dostoiévski

    1. Olha, acredito que a segunda opção seja a mais correta, pois você possui um grande domínio da língua russa e do português, traduzindo os livros com muita habilidade, pois um poeta é um dos escritores mais habilidosos, acredito. Além disso, já vi alguns vídeos onde você fala sobre a literatura russa e Dostoiévski, o que mostra o seu grande conhecimento sobre o assunto. E é um excelente trabalho o seu, vertendo grandes obras russas para o português, de forma direta, era o que sempre precisávamos.
      Não possuo um grande conhecimento sobre o russo, mas gosto de pesquisar sobre e também pesquiso sobre traduções, por isso sempre gosto de dar o espaço (merecido) aos tradutores em minhas resenhas, já que eles têm a função de ensinar nosso idioma aos escritores, e essa não é uma tarefa sempre fácil. A profissão do tradutor deve ser mais valorizada nas divulgações dos livros e tento fazer meu papel.
      Aproveitando, gostaria de saber se poderia sanar uma dúvida. Por que Dostoiévski omite o nome de lugares, como “ele se dirigiu à praça V***”? Também deixo uma sugestão: uma tradução do livro ‘Os demônios’!
      Fico muito feliz de tê-lo por aqui, e muito mais por ter gostado da resenha. Muito obrigado pelas suas palavras!
      Abraço.

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  1. Faço de Juju minhas palavras também. Com essa resenha você me fez reviver essa obra clássica. Como sou daquelas que vive no mundo do pensar e divagar, gostei justamente por causa da filosofia e das entrelinhas rssss. Obrigada por compartilhar suas impressões sobre o livro, e, da vida do autor. Abraços Alan🙋🏽‍♀️

    Curtido por 1 pessoa

    1. Em livros assim, nós que gostamos de filosofia nos perdemos entre as páginas, não é? Um grande mergulho em pensamentos e na psicologia também, já que esse é um outro grande ponto do livro.
      Fico feliz que o post tenha feito você relembrar a obra, reviver os bons momentos que sua leitura proporcionam! Obrigado.
      Abraço! 😀

      Curtido por 1 pessoa

  2. Gostei muito da sua resenha, Alan. Com a sua análise fiquei instigada a conhecer os livros do Fiodor, principalmente nessas questões filosóficas abordadas em “Crime e Castigo”. Acredito tbm que os livros sirvam de caminhos para desvendar os mistérios da nossa psique, e a ficção é um bom começo para isso. 😄

    Curtido por 2 pessoas

    1. Com toda certeza! A ficção é uma boa maneira de discutir a realidade, um jeito mais gostoso de abordar temas mais complicados, que seriam mais chatos em sua forma “pura”. Dostoiévski é um bom exemplo e uma boa pedida para esse tipo de leitura, seus livros são cheios dessas questões filosóficas. A literatura russa do século XIX é assim.
      Obrigado pela vista!
      Grande abraço! 😀

      Curtido por 1 pessoa

  3. Não é o meu livro favorito de Fiodor, mas gostei de tomar contato com a história e decifrar a figira de R.
    Admiro o estilo de Fiodor desde a juventude. Fui apresentada a ele através de Noites Brancas, pouco depois li Os irmãos… e crime e castigo ficou por último. Gosto, mas acho que pelo fato de ser o mais comentado, não me interessou tanto. Sou dessas.

    Curtido por 3 pessoas

    1. É um livro bastante filosófico e cheio de indagações pessoais das personagens. Eu ainda preciso ler outros para ver a diferença no estilo do autor, mas deu pra notar que este é bem denso mesmo. Gostei, porque gosto desses assuntos mais filosóficos e psicológicos, mas concordo com sua opinião, são boas críticas à obra, justas. Espero ler outros livros do autor em breve!
      Obrigado pela visita!
      Abraço.

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  4. Otniel Pereira disse:

    Ótima analise do livro! Eu o li no ano passado e gostei bastante. No entanto, faltou conhecimento para eu entender todas as críticas e intenções do autor. Mesmo assim foi uma obra bem marcante pra mim. Devo relê-lo em breve.

    Ótima semana!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Acho que para compreender esse livro completamente e de maneira aprofundada, é preciso muito tempo de estudo sobre o autor! É um livro bem denso, cheio de detalhes que podem parecer superficiais, se lermos de forma mais distraída. Acho que isso deixa a obra ainda mais rica, e garante uma releitura, para buscar esses detalhes. Mas também é uma livro que pode possuir diversas outras interpretações, até mesmo das partes psicológicas.
      Tente fazer uma releitura sim, vai ser bem legal.
      Obrigado pela sua visita e pelas suas palavras.
      Uma ótima semana para você também.
      Grande abraço!

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  5. Fanstástica análise da obra, como sempre 🙂
    Ainda não li nada dele (shame…), mas fico sempre com aquela impressão que ainda não tenho maturidade para isso, que para poder mergulhar na obra, teria que me isolar por 3 meses nas montanhas… lol (eu rio, mas é sério…).
    Tenho uma curiosidade… Sabes dizer o Porquê de nessa edição, o título na capa vir com o R e os dois E ao contrário? Seria apenas um efeito estético ou haveria algo mais subtil? 🙂
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Não é um livro difícil de ser lido e depois que você compreendo o que o autor está criticando, fica tudo bem claro, exposto nas personagens e em suas ações. Poderia dizer que, nesse sentido, é uma obra bastante didática. É uma leitura agradável também, vale a pena tentar, sem medo. Sem precisar desse isolamento ha ha!
      Eu acho que as letras do título estão invertidas para imitar o alfabeto russo, que possui os seguintes caracteres: ‘Я’ e ‘Э’. Uma decisão gráfica, por se tratar de um livro russo, imagino que seja isso.
      Obrigado pela sua visita!
      Grande abraço! 😀

      Curtido por 1 pessoa

      1. Sobre a capa, suspeitei desde o princípio! 😀 hahaha
        Neste momento estou, em fase de decisão das minhas leituras desse ano. Coloquei como meta 30 romances (fora todas as outras leituras que faço). Tenho cá “Os Irmãos Laramazov”, que ganhei, e provavelmente é por esse que vou começar minhas leituras dele… Mas ainda não sei 🙂
        Já sobre o isolamento… Acho que sou assim mesmo. Para mim, a leitura é um momento de introspecção. Enquanto leio, já não estou aqui… 🙂
        Abraços!

        Curtido por 1 pessoa

      2. Vai começar a leitura de Dostoiévski por um grande livro então! Esse eu ainda não li, mas i o tenho aqui, aguardando sua vez de ser lido.
        Suas edições são brasileiras ou portuguesas? Me parece que as traduções portuguesas, diretas do russo, são ótimas.

        Curtido por 1 pessoa

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