Utilizando o brincar na Terapia Comportamental

Independente do pressuposto teórico, o brincar é um instrumento necessário para o atendimento psicológico infantil, uma ferramenta de intervenção e de comunicação indispensável. O brincar pode significar instrumento de exploração do mundo, expressão de sentimento ou meio de comunicação.

O brincar como terapia

O brinquedo passou a ser investigado com mais seriedade a partir do final do século XIX. Analisando por uma perspectiva histórica, Freud deve ser considerado o primeiro a reconhecer a utilidade da brincadeira num processo terapêutico, com seu relato do caso do “Pequeno Hans”, entretanto ele não gostava da ideia de uma psicanálise infantil. Os trabalhos de Melanie Klein (a desenvolvedora da técnica do brincar como conhecemos atualmente), Ana Freud (que discordava de Klein em vários pontos) e Winnicott (que via o brincar como algo terapêutico em si mesmo), desde a década de 1920, são modelos de utilização da brincadeira como instrumento de entendimento da criança. Na década de 1950, Piaget observou de forma sistemática o papel do jogo nas fases do desenvolvimento infantil.

A visão comportamental

Terapeutas comportamentais, atualmente, têm utilizado cada vez mais comportamentos lúdicos em sessões de terapia como uma maneira de trabalhar a solução de problemas ou prevenção de dificuldades futuras.

As pessoas desenvolvem, ao longo da vida, um rol de habilidades sociais, de linguagem, físicas e motoras necessárias a um padrão de interação com o ambiente. O repertório de uma criança ainda não está tão desenvolvido a ponto de ela obter benefícios apenas através de uma terapia estritamente verbal. Assim, a situação lúdica é utilizada na aplicação direta de procedimentos de manejo de contingências.

A utilização sistemática de procedimentos comportamentais com crianças se iniciou na década de 20, a partir dos trabalhos de Watson sobre eliminação de fobias infantis. Entre 1930 e 1950, a Terapia Comportamental com crianças entrou em estado de latência. Apenas com os trabalhos de Lazarus e Wolpe, em 1950, é que a terapia comportamental infantil passou a se desenvolver. Em seu início, essa terapia visava ensinar à criança comportamentos específicos mais saudáveis, através de aprendizagem e de condicionamento operante. Nesse período surgiu a Modificação de Comportamento infantil, utilizando conceitos de aprendizagem e achados das práticas experimentais para a alteração de comportamentos-problema. Somente a partir de meados de 1960 é que o comportamento da criança passou a ser analisado funcionalmente em relação à sua interação com o ambiente e não somente como uma resposta específica. Passou-se a investigar o ambiente educacional, os eventos privados infantis e a relevância da relação terapêutica. E somente na década de 1980 as comunicações sobre o brincar com a criança na terapia comportamental passou a ter maior impacto.

Um estudo

Um estudo foi realizado pelos autores do artigo citado abaixo, com dois grupos de crianças. Os Grupos de Espera Recreativos (GERs). Nesses as crianças brincavam sem finalidades terapêuticas e era composto por crianças inscritas em uma clínica-escola e que estavam na lista de espera pelo atendimento. O outro projeto era o dos Grupos Ludoterapêuticos Comportamentais Infantis (GLCs). Nesses grupos as brincadeiras desenvolvidas com as crianças possuíam o objetivo de fazê-las discriminar as contingências controladoras de seu comportamento agressivo, tanto nas sessões de terapia, quanto fora dela.

Brincar com a crianças enquanto ela aguardava o atendimento era uma alternativa para evitar a evasão do atendimento devido à longa espera. Esses grupos de espera possuem os objetivos de: atender a demanda, evitando longas listas; diminuir desistências; identificar desmotivados, auxiliando o diagnóstico; trabalhar as expectativas dos clientes; refletir a respeito da necessidade do atendimento; e esclarecer o que é o serviço. Além de contornar a questão da espera, os grupos recreativos possibilitaram a coleta de material útil para atendimento e pesquisas futuras.

O líder dos GERs deve possuir certas habilidades para exercer a função de recreacionista ou o de terapeuta. O recreacionista deve ter o conhecimento suficiente de brincadeiras lúdicas e relacioná-las à faixa etária atendida. Para estagiar como terapeuta, é preciso que o aluno se encontre em um nível avançado no curso de Psicologia.

Nos encontros para brincar, as crianças se comportam como de hábito, mostrando como se relacionam com seus pares. A situação lúdica registrada possibilita a observação e análise do comportamento e suas relações funcionais com o ambiente.

A frequência, duração e intensidade do comportamento-alvo da queixa trazida são os critérios utilizados para julgar se um problema infantil merece a atenção de um psicólogo. Os GLCs, em última instância, visam promover alterações comportamentais infantis de modo a ajustar socialmente a criança encaminhada para atendimento psicológico. Uma das atividades desses grupos são os jogos de fantasia, que se mostram úteis na identificação de variáveis das quais um comportamento indesejado pode ser função. Dessa forma, é possível identificar variáveis de controle e escolher procedimentos mais apropriados para o manejo de contingências.

Concluindo

Através da brincadeira, a criança pode analisar seu próprio comportamento, ficando ciente das contingências que o determinam.

A terapia infantil tem os mesmos objetivos de qualquer terapia comportamental, segundo as mesmas etapas: avaliação inicial; estudo do problema; delimitação de metas; escolha de técnicas e procedimentos; implementação; avaliação do processo; avaliação final e seguimento.

Se considerarmos que o manejo de contingências pela própria criança parece ser mais durável e eficiente mesmo quando os pais estão envolvidos no tratamento, pode-se enumerar os principais pontos do atendimento comportamental infantil: a criança é envolvida na ação, pela brincadeira; os sentimentos, pensamentos, fantasias e ambiente da criança são focalizados; os procedimentos são baseados no ensino de estratégias de enfrentamento e manejo de situação-problema; a terapia é estruturada, diretiva e orientada a um alvo específico, o terapeuta auxilia a criança a planejar metas; a intervenção incorpora procedimentos comportamentais de validade empiricamente demonstrada, como modelação, modelagem, entre outros; o trabalho permite o exame empírico e o estudo dos efeitos do tratamento. Somente a análise funcional do caso específico pode garantir a adoção de um plano de intervenção mais adequado às especificidades da situação.

Tanto os GERs quanto os GLCs parecem ter as mesmas características formais. Mesmos que ambos utilizem brinquedos, seus objetivos distintos parecem determinar suas diferenças. Do ponto de vista das mães, as crianças dos GERs haviam se modificado em termos de competência social, pois estão em contato com novos modelos de relação, onde habilidades estão sendo reforçadas. As diferenças entre os grupos estão relacionadas a seus objetivos e, dessa forma, com os seus resultados.

Alan Martins

Referência Bibliográfica

GUERRELHAS, F.; BUENO, M.; SILVARES, E. F. de M.. Grupo de ludoterapia comportamental X Grupo de espera recreativo infantil. Rev. bras. ter. comport. cogn., 2-2, p. 157-169, dez. 2000.

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Imagem por Lucélia Ribeiro. Publicada sob Licença (CC BY-SA 2.0). Disponível em: https://flic.kr/p/ehBnfs.

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Utilizando o brincar na Terapia Comportamental

7 comentários sobre “Utilizando o brincar na Terapia Comportamental

  1. um tema e tanto o de hoje. gosto mais de ler que comentar quando não tenho conhecimento suficiente. todavia, há algo que sempre é presente em minha infância é que a criatividade era mais espontânea, não havia eletrônicos condutores, etc. não que hoje não possa haver, mas creio que há uma diferença imensa e não sei exatamente o impacto disso na vida futura. muito bom, Alan. grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Os brinquedos hoje estão muito mais tecnológicos mesmo, chamando a atenção das crianças com muito mais força. Mas os estudiosos dizem que as crianças continuarão brincando com brinquedos simples, que estimulem a imaginação e criatividade, dentro do setting terapêutico. Mas isso é algo que esses profissionais terão que lidar no futuro, encontrar novas formas de brincar, caso as coisas simples não sejam de interesse das futuras crianças, será um grande desafio. Talvez isso possa acontecer em crianças um pouco maiores. É algo a se pensar, tanto os profissionais, quantos os pais.
      Uma boa questão a que você levantou, dá uma boa discussão!
      Obrigado pela visita e pelos apontamentos.
      Grande abraço.

      Curtir

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