Minhas Leituras #36: Ciclo da Lua, poemas – César Magalhães Borges

Título: Ciclo da Lua, poemas
Autor: César Magalhães Borges
Editora: Editora Plêiade
Ano: 2010
Páginas: 94
Veja o livro no site da editora: http://www.editorapleiade.com.br/detalheslivro.php?cod=312

“Em palavras exatas,/ disseram/ que o mundo/ não teria mais fronteiras./ Mas ninguém falou/ que as barreiras cairiam/ somente para que/ subissem prateleiras/ desiguais em iguarias”. (BORGES, César Magalhães. Esperantos. In: Ciclo da Lua. Plêiade, 2010, p. 62)

Dentre os diversos subgêneros da literatura, a poesia é, talvez, aquela que dá maior liberdade ao trabalho do autor. Uma poesia não se faz apenas de rimas, que na verdade não são necessárias, possibilitando ao artista uma maior manipulação do verso, tanto no emprego de palavras, quanto em estrutura. É possível formatar o poema a seu gosto, dando uma característica visual ao texto, o que pode ser um ótimo recurso para expressar o que os versos dizem, de uma forma diferente e única. O presente livro apresenta poesias que usam e abusam da liberdade estrutural, o que dá vida e originalidade à obra.

Professor poeta

 Ser professor universitário não foi o que César Magalhães Borges sempre imaginou para sua vida, muito menos ser escritor. Passou a ter essas ideias na adolescência; enquanto criança, possuía os sonhos mais fantasiosos, característicos dessa idade. Formou-se em Letras na década de 1980 e, aos vinte e dois anos, tornou-se professor universitário.

Antes disso, já trabalhou na extinta profissão de operador de telex. Hoje, além de professor, é autor de diversos artigos, crônicas, contos, roteiros, histórias infantis e poemas. Seu trabalho de poesia é desenvolvido desde a década em que se formou, continuando na ativa até hoje, levando sua arte a diversos locais, em apresentações poéticas e palestras.

“A carreira do poeta/ é solo/ e muito chão/ até achegar/ ao alto” In: Na trilha, p. 17

O lado positivo

O livro é dividido em cinco partes, que são todas as fases da Lua, com a última parte sendo o reinicio desse ciclo. Ademais, cada parte também representa uma estação do ano, o que muda a cor do texto, cada estação é representada por uma cor diferente.

Trata-se de um projeto desenvolvido ao longo de vários anos, iniciando-se no final da década de 1980, com o livro sendo publicado pela primeira vez em 1999. São poemas que representam diversos ciclos e épocas do autor, o que combina com o título.

César Magalhães Borges usou e abusou da liberdade que a poesia proporciona. Existem poemas curtos e outros mais longos, o que dá um bom balanceamento. Em uma poesia que fala sobre a chuva, por exemplo, ele disponibilizou os verses de uma maneira que representassem a chuva caindo; já em outros, os versos ora estão à direita, ora à esquerda. É um livro divertido e rápido de ser lido, e toda essa liberdade e a maneira em que os poemas estão organizados, representando ciclos, tendo uma ligação com a Lua e a estação representada, mostra que o autor é muito criativo e inteligente, criando um livro único.

“Ao que me cabe,/ refaço as crenças/ que criei e me criaram/ e celebro as bodas/ de um vinho novo”. In: Bodas de vinho, p. 27

O lado negativo

Ao todo, o livro é composto por vinte e nove poemas, de temas variados, uns ligados à fase da Lua, outros à estação representada e outros com temáticas diversas. São poemas bonitos, que abordam temas profundos de uma maneira inteligente. Entretanto, isso não ocorre com a maioria deles, alguns ficam até um pouco sem sentido, tanto pelo abuso da liberdade estrutural, tanto pelo texto começar falando sobre uma coisa e terminar dizendo sobre algo totalmente diferente.

Não acredito que poemas precisam de rimas para serem bons, porém, palavras bem escolhidas dão uma sonoridade à poesia. Muitos dos poemas dessa edição não possuem uma sonoridade, boa parte funciona como uma prosa em verso, contando uma história, ou discorrendo sobre algum tema. Poucas são as poesias que marcam e que tocam o leitor de uma maneira mais profunda, algo que a poesia é capaz de fazer com maestria.

“Não há melhor trabalho/ que o bem/ que cada trabalho edifica;/ mãos sujas/ se tornam limpas” In: Pão, p. 37

A edição

Em 2010 a terceira edição da obra foi publicada, o que mostra se tratar de um livro bem-sucedido, ou não teria saído da primeira edição. Ao se fazer uma busca nas livrarias online, este livro não é encontrado no estoque de nenhuma. Até que uma nova edição seja lançada, dificilmente será encontrado, talvez em sebos.

Minha edição foi adquirida de maneira gratuita, assim como minha edição de ‘Madame Bovary’, quando eu estava no Ensino Médio, por meio do programa Apoio ao Saber. A qualidade do material não pode ser julgada, pois não foi um livro comprado. Descrevendo a presente edição, temos um livro de capa mole, sem orelhas, com miolo em papel offset e boa diagramação, utilizando texto colorido e algumas ilustrações. Não posso comentar sobre a qualidade das edições que eram comercializadas.

“Tive que experimentar/ toda cor de pecado e perdão/ para, um dia (talvez),/ ser/ branco, branco/ purificado” In: Plantio, p. 49

Conclusão

Um poeta moderno, que não fica preso pelas amarras estruturais, utilizando-se de grande liberdade para criar seus poemas, que são organizados de forma inteligente e divertida, constituindo uma obra única. Possui altos e baixos, com bons poemas e outros nem tanto assim, pois boa parte se perdem, ficam sem sentido. É uma excelente amostra experimental, pois o autor tentou praticamente de tudo. Temática interessante, que representa diversas fases do autor, fazendo alusão ao título, entretanto não é uma obra marcante, que toca a alma do leitor, algo que apenas a poesia consegue fazer. Mas, como uma poesia, assim como a Lua, nunca é a mesma ao vê-la de novo, quem sabe em uma próxima leitura, tudo não seja diferente.

“Ressenti/ o amor perdido/ sem saber/ onde o perdi/ E mais uma vez/ tentei vestir/ o que não servia mais” In: Manequim, p. 75

Minha nota (de 0 a 3): 3,5

Alan Martins

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A capa foi elaborada pelo próprio autor, o cara da imagem à direita.


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Minhas Leituras #36: Ciclo da Lua, poemas – César Magalhães Borges

17 comentários sobre “Minhas Leituras #36: Ciclo da Lua, poemas – César Magalhães Borges

  1. A poesia é quem sabe o gênero mais complexo para a criação. Poucos poetas dominam a arte de escrever com mestria literatura. Essa mudança que você se refere pode o que no conto chamamos estranhamento ou seja o desfecho inesperado, que pode ” fugir” do tema. Como não li o livro fico apenas com essa observação. A ideia da edição me parece interessante. Gracias pela sugestão. Meu abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Pode ser esse estranhamento, entretanto fico com a dúvida, se em todos os poemas pode ter sido isso. É uma leitura leve e bem rápida, de um gênero que não é tão publicado assim quanto o romance. A proposta do livro é muito boa.
      Agradeço o comentário, e fico feliz que gostou da sugestão.
      Abraço.

      Curtir

    1. É bem simples: o Governo do Estado de São Paulo doava kits contendo alguns livros para todos os alunos do Ensino Médio da rede pública. Quando eu estudava, o kit continha 3 livros, clássicos da literatura brasileira e mundial. Vinham em versões econômicas, porém com o mesmo conteúdo da versão comercial da obra. O Governo firmava acordos com algumas editoras para a aquisição dos livros. Não sei se hoje em dia os alunos ainda recebem os kits, pelo o que eu ouvi, isso não ocorre mais. Uma pena, pois eram bons livros, o que incentivava a leitura, principalmente para aqueles que não podem comprar livros, ou que não possuem esse hábito. Eu havia esquecido de colocar um link no meu texto, já corrigido. Aqui você pode ver mais sobre como funcionava esse programa: http://www.educacao.sp.gov.br/noticias/pesquisa-do-apoio-ao-saber-ira-identificar-generos-literarios-preferidos-de-alunos
      Obrigado pela visita e pelo interesse.
      Abraço.

      Curtir

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