A HISTÓRIA DA ORIENTAÇÃO VOCACIONAL NO BRASIL

O texto a seguir foi parte de um trabalho que desenvolvi na faculdade, no meu curso de Psicologia. Foi um projeto de Orientação Vocacional executado em algumas escolas de Ensino Médio de minha cidade.

O processo de escolha de uma profissão é fundamental na vida de uma pessoa, pois, a partir dela, seu futuro será traçado. Geralmente essa escolha acontece na adolescência, um período de grande conflito e dúvidas. Muitos jovens encontram-se desorientados no meio de um turbilhão de cursos e carreiras disponíveis.

A visão e o conhecimento da Psicologia podem trazer diversos benefícios aos jovens que buscam conhecer melhor as profissões e a si mesmos. Trabalhando como facilitadores, os estagiários podem despertar novas ideias nesses adolescentes que estão em pleno momento de decisão. O trabalho com diálogos, debates de ideias e dinâmicas de grupo pode levantar questões e criar um ambiente para que esses alunos falem abertamente; um espaço que, muitas vezes, a família e a escola não proporcionam.

A primeira aplicação da Psicologia às relações de trabalho, no Brasil, aparece na década de 20. Porém, do ponto de vista prático, a primeira experiência ocorreu em 1924, para a seleção de alunos na escola Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. A partir dessa experiência, muitas outras surgiram e a aplicação da Psicologia ao trabalho teve acelerado desenvolvimento (ABADE, 2005).

A década de 40 foi marcada por grandes mudanças sociais e nesse período foi criado o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP). Segundo Abade (2005), o ISOP trabalhava com técnicas de seleção e orientação profissional, dando atenção à classe média alta. A finalidade da Orientação Profissional visava maior produtividade e buscava adaptar o jovem ao novo contexto social daquele período.

Segundo Bock (1999), havia, no Brasil, um enorme interesse em sair da produção agrária e ingressar na modernidade através do crescimento da industrialização. A luta pela educação para a classe trabalhadora e a formação de um novo homem, industrializado e urbano, influenciaram as ideias da Psicologia nesse período. A grande questão era: que conhecimentos científicos são necessários para desenvolver as crianças na direção desta sociedade moderna que queremos?

Com a educação tomando lugar de grande importância para a sociedade, a criança passou a ser vista como possuidora de uma natureza pura e boa, que necessitava ser conhecida em profundidade para que o trabalho educacional pudesse contribuir para mantê-la pura, espontânea e livre. Conhecer seu desenvolvimento para poder corrigir seu percurso se tornou tarefa imprescindível (BOCK, 1999).

A abordagem da Orientação Profissional no Brasil no início do século XX é psicométrica. No início da década de 60 essa abordagem foi substituída pelo autoconhecimento, com influências de Rogers e Freud (Abade, 2005). Em 1962, as técnicas utilizadas sofreram bastante influência do positivismo. Porém nesse mesmo período Pierre Weil, Célio Garcia, entre outros, desenvolveram uma atmosfera mais democrática, levando a abordagem psico-sociológica aos grupos.

Abade (2005) cita que, na década de 70, ocorreu um processo de abertura política no Brasil, o que possibilitou e incentivou a maior produção de publicações sobre Psicologia Social e Dinâmica de Grupo ligadas a Orientação Profissional.

O mundo, a sociedade e a tecnologia evoluíram muito com o passar das décadas. Os métodos utilizados antes já não se adequam à realidade do país. A Orientação Profissional, para Abade (2005, p. 22), “[…] não pode prescindir de um referencial psicossocial, ou seja, mais que considerar a relevância dos fatores sociais no processo de escolha, é importante que o orientador baseie sua prática em referenciais teóricos-metodológicos psicossociais”.

Além de promover o autoconhecimento, o psicólogo e suas dinâmicas promovem também saúde. A intenção do psicólogo é fazer com que o indivíduo tome consciência de que ele é um ser histórico e que está inserido socialmente. É de extrema importância que ele entenda sua trajetória histórica e seu papel na sociedade (BOCK et al, 1995).

A orientação profissional, em um viés psicossocial, tem grande enfoque na relação entre homem, trabalho e educação. Esse tipo de intervenção busca ampliar o conhecimento do indivíduo sobre o mundo que o cerca, sobre o contexto a seu redor, fornecendo instrumentos para que o possibilite modificar esse contexto. Para uma boa escolha profissional, o indivíduo deve se sentir ativo na construção de sua própria história e do mundo em que vive, além de ser capaz de uma análise crítica da sociedade e do trabalho (SOUZA; MENANDRO; BERTOLLO et al., 2009).

A família e a escola são importantes agentes na construção e evolução do indivíduo em questões sociais, intelectuais, físicas e emocionais. A escola assegura a apreensão e instrução de conhecimento, se preocupando com o processo ensino-aprendizagem. Na família o indivíduo desenvolve habilidades de socialização, cognitivas e afetivas (DESSEN; POLONIA, 2007).

A estrutura familiar tem grande influência sobre o desempenho do aluno na escola. A permanência do aluno na escola também pode ser estimulada ou desestimulada pela família. Apesar de um sistema escolar transformador conseguir reverter vários dos aspectos negativos, é importante que a escola conte com a colaboração de agentes que estão além do campo educacional, e a família é um deles (DESSEN; PLONIA, 2007).

Sendo assim, a família também exerce grande influência na escolha da profissão de um indivíduo. Muitas pessoas deixam os verdadeiros sonhos de lado pela opinião coerciva dos pais, o que pode levar à uma vida de insucesso e um sentimento de não-realização.

O homem é um ser social e o trabalho desempenha importante papel para sua comunicação e identificação. O papel do psicólogo ao promover autoconhecimento faz com que o indivíduo se sinta parte integrante da sociedade. E conhecendo suas habilidades e descobrindo um ofício, essa integração torna-se facilitada

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABADE, Flávia Lemos. Orientação Profissional no Brasil: uma visão histórica da produção científica. Revista brasileira de Orientação Profissional, Belo Horizonte, vol. 6, n.1, p.15-24, 2005.

BOCK, Ana Mercês Bahia. A Psicologia a caminho do novo século: identidade profissional e compromisso social. Estudos de Psicologia, São Paulo, vol. 4, n.2, p.315-329, 1999.

BOCK, Ana Mercês Bahia; et al. Por uma prática promotora de saúde em Orientação Vocacional. In: A escolha profissional em questão. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1995. p. 9-24.

SOUZA, Luiz Gustavo Silva; et al. Oficina de Orientação Profissional em uma Escola Pública: Uma Abordagem Psicossocial. Psicologia, Ciência e Profissão. Brasília, vol. 29, n.2, p. 416-427. 2009.

Alan Martins

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4 comentários sobre “A HISTÓRIA DA ORIENTAÇÃO VOCACIONAL NO BRASIL

  1. Sem dúvida, o apoio da Psicologia como orientadora nessa fase de escolha é importante. Acredito que – pelo menos em nível ideal – a estrutura familiar e uma escola que ofereça possibilidades em seu currículo possa fazer com que sejam despertadas vocações. Muito bom o texto e seu conteúdo, Alan.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigado pelo comentário e pela visita. Infelizmente as escolas não abrem muito caminhos para os alunos, apenas poucos realmente se decidem com mais facilidade (falando sobre o sistema público). A falta de psicólogos em escolas também é um ponto negativo, já que seria um profissional de grande ajuda e importância para a instituição. Há muito o que se melhorar.

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