MINHAS LEITURAS #28: MERIDIANO DE SANGUE – CORMAC MCCARTHY

Título: Meridiano de sangue
Autor: Cormac McCarthy
Editora: Alfaguara
Ano: 2009
Páginas: 352
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Veja o livro no site da editora: Atualmente esgotado

“O homem que acredita que os segredos do mundo estão escondidos para sempre vive em mistério e medo. A superstição o arrasta para o fundo”. (MCCARTHY, Cormac. Meridiano de sangue. Alfaguara, 2009,  p. 210)

Assim como boa parte da história do mundo, a história da expansão territorial dos Estados Unidos foi marcada por episódios sangrentos e horríveis. Esse livro fala sobre a violência do Oeste no século XIX. É uma narrativa de estilo Western, misturando fatos históricos e ficção, com o estilo do autor. Um livro violento, de leitura pesada, porém que revela como a violência moldou o mundo. Afinal, conquistas territoriais nunca foram pacíficas.

Um pouco sobre o autor

No início de sua carreira, McCarthy não era um escritor tão aclamado assim. Seu trabalho foi sustentado por instituições que apoiam artistas, seus livros não vendiam tanto. Isso mudou nos anos 1990, quando venceu o National Book Award, um prêmio muito importante para a literatura nos EUA.

Atualmente é um escritor de sucesso, com boas vendas, estudado em universidades e detentor de um prêmio Pulitzer. Também é considerado um dos maiores escritores da história recente de seu país. O que muitos dizem, também, é que ‘Meridiano de sangue; ou o rubor crepuscular no Oeste’ (nome completo da obra) é sua obra-prima.

Já teve obras adaptadas para o cinema, sendo a adaptação de maior sucesso o filme ‘Onde os fracos não têm vez’, filme que venceu o Oscar. ‘A estrada’ lhe rendeu o Pulitzer de melhor ficção. A sua qualidade de escrita é inegável, reconhecido por leitores comuns e por outros escritores. Sua obra merece ser conhecida.

“Um homem sofre pra entender sua mente porque sua mente é tudo o que ele tem pra entender a mente”. p. 25

O velho Oeste sangrento

Para expandir seu território ao Oeste, os EUA não mediram esforços. Houve diversos conflitos, o país entrou em guerra com o México. Saiu vitorioso dessa guerra e teve uma grande área territorial anexada, compreendendo o Estado da Califórnia e partes de outros Estados, pois eram território mexicano até então. O Texas era uma república independente até o início dessa guerra, em 1846 e desempenhou um papel importante nessa guerra.

No meio disso tudo também havia os índios, que eram vistos como pagãos. Muitas tribos foram dizimadas, não eram bem vistos por nenhuma das duas nações. Porém, lutaram até o fim. Algumas tribos eram bastante violentas, como os Apaches, que escalpelavam suas vítimas.

O livro se passa logo após essa guerra, onde os EUA ainda continuavam a se expandir, mandando gente ao Oeste. Um ambiente isolado e muito deserto era quase uma terra sem lei. Havia grupos de batedores que tocavam o terror nas aldeias e vilas. Para o mundo ser como é hoje, muita gente morreu e costumes foram esquecidos, perdidos no tempo com a imposição de outros.

“Só agora a criança se despe enfim de tudo que foi. Suas origens tornam-se remotas como seu destino e nunca mais outra vez por mais voltas que o mundo dê haverá plagas tão selvagens e bárbaras a ponto de pôr à prova se a matéria da criação pode ser moldada à vontade do homem ou se o seu próprio coração não é uma argila de outro tipo”. p.10

Um enredo violento

A história se inicia falando sobre o nascimento do protagonista e como ele fugiu de casa aos 14 anos. Ele não possui nome, é conhecido como “Kid” e há muito pouca descrição sobre seus sentimentos e seu físico. Seus diálogos são breves. É um jovem com tendência à violência que acaba se tornando parte de um grupo que viajará para o Oeste.

Esse grupo se dá mal, pois é atacado por índios e poucos sobrevivem. O Kid teve sorte e logo após se junta a outro grupo de pistoleiros, liderado por uma figura histórica, o mercenário John Joel Glanton. Uma outra figura histórica está presente nesse grupo, o juiz Holden. São dois homens que realmente existiram, porém há muito menos informações sobre o segundo.

É um grupo que mata a troco de dinheiro, governos o contratam para proteção. Porém, matam até gente inocente, além dos índios que são o alvo principal. Além de matar, roubam, queimam aldeias, estupram, maltratam crianças e animais, e escalpelam. Há muito sangue nesse enredo e algumas cenas fortes e descritivas.

No meio do livro o foco pousa mais sobre Glanton e Holden, voltando a focar no Kid na parte final. O grande antagonista é Holden, um ser desprezível, que provoca certa admiração pela sua inteligência, mas que causa repulsa pela sua violência. McCarthy quase o transformou numa figura mitológica, quase um ser fantástico.

“É da natureza do mundo vicejar e florir e morrer mas nos negócios do homem não há definhamento e o zênite de sua expressão sinaliza o começo da noite”. p. 155

Uma escrita diferente

Quem já leu ‘Onde os velhos não têm vez’ — confira minha resenha AQUI — já sabe como se trata de um autor de escrita violenta. O juiz Holden se assemelha ao antagonista desse livro, Anton Chigurh. Os dois são a personificação do mal, um mal imparável. McCarthy já escreveu diversos Westerns e retrata bem a violência do Oeste. E quem já leu ‘A estrada’, sabe que ele pode escrever diálogos curtos e, às vezes, confusos.

Nesse caso, a confusão é maior. O texto é todo corrido, não há marcação de diálogo. Ele não fez uso de aspas ou travessão. A narrativa em terceira pessoa é direta. A falta de vírgulas também causa estranheza, há muitos momentos onde elas deveriam ser usadas, porém não são. Isso pode ser conferido em algumas citações que inseri aqui.

Tudo isso deixa o livro um pouco arrastado. Há muita ação e violência, o que poderia deixar a leitura frenética, mas a forma como é escrita deixa o texto cansativo. Não é fácil encontrar o sentido do enredo, aonde que deseja chegar. Não há um objetivo central que motiva os acontecimentos. Passa a ser mais uma amostra da violência desse período da história dos EUA e um pouco de filosofia sobre o homem, porém o autor deixa as interpretações para os leitores, não entrega nada mastigado. Também relata o preconceito contra os índios e negros, como foram injustiçados.

“[…] o fogo que de fato contém em si parte do próprio homem pois este o é menos sem ele e se vê separado de suas origens e se torna um exilado. Pois cada fogo é todos os fogos, o primeiro fogo e o último que um dia haverá de ser”. p. 256

Sobre a edição

Quem conhece os livros da Alfaguara sabe que a editora possui um padrão para suas publicações. Esse não poderia ser diferente. Brochura, capa comum com orelhas, papel Pólen Soft e boa diagramação.

A tradução de Cássio de Arantes Leite ficou boa, porém algumas palavras adaptadas ficaram um pouco ruins, como utilizar a expressão “diacho”. Mas foi bem legal ele ter deixado alguns termos em inglês, assim como não traduzir “Kid” para “Garoto”. É uma tradução digna, para um livro com momentos confusos, de escrita estranha. O trabalho da revisão foi muito bom.

“Pois a existência tem sua própria ordem e esta nenhuma mente humana pode abarcar, sendo a própria mente apenas mais um fato entre outros”. p. 257

Conclusão

É um livro um pouco difícil, pela forma que é escrito. Não é uma narrativa muito empolgante nem muito rápida, porém é interessante, cheia de valor histórico. O leitor precisa interpretar bastante o que o autor quer dizer com tudo aquilo. Dos livros que já li de McCarthy, não considero esse o melhor.

Quem não gosta de sangue, violência, às vezes descritiva demais, não vai gostar muito da leitura. Em certos pontos é preciso ter estômago. As personagens interessantes. Não diria que o protagonista é forte, porém o vilão é. Holden conseguirá o ódio de qualquer um, um dos maiores violões já criados.

Acredito que valha a pena a leitura. O difícil é conseguir o livro, só em sebos e no site Estante Virtual. É bem possível que a Alfaguara republique-o. Vamos aguardar.

Obrigado por ler.

“Qualquer um que fosse capaz de descobrir seu próprio destino e portanto de eleger algum curso contrário conseguiria quando muito atingir a mesmíssima localização na mesma hora designada, pois o destino de cada homem é tão grande quanto o mundo que ele habita e contém dentro de si igualmente todas as oposições”. p. 345

Minha nota (de 0 a 5): 3,5

Alan Martins

meridiano_de_sangue_meu
O cenário árido é constante nesse livro.

Licença Creative Commons
Este post está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional.

Anúncios
MINHAS LEITURAS #28: MERIDIANO DE SANGUE – CORMAC MCCARTHY

4 comentários sobre “MINHAS LEITURAS #28: MERIDIANO DE SANGUE – CORMAC MCCARTHY

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s